Deserto: da precariedade à riqueza

Recordo-me de quando escrevi meu TCC ao final de minha graduação. O título de minha monografia foi “LITERATURARTE: HUMANIZAÇÃO E SUBJETIVIDADE”. É isso mesmo, não digitei errado, literaturarte, tudo junto, para mostrar que literatura e arte não devem se separar, é uma coisa só. Mas falo daquela literatura que é capaz de nos ajudar no processo de humanização, revelando que cada ser é único, insubstituível, singular, nos ajudando a olhar para nós mesmo e nos encontrarmos, visitar nosso mundo interior para também nos doarmos para os outros. Você já encontrou uma leitura assim? Há livros que nos devolvem a nós mesmos, e esses eu considero obras de arte, e como Deus é o maior artista de todos, se utiliza de tais recursos para também falar ao nosso interior e revelar quem somos, de quem somos e de onde pertencemos.

Um desses livros é o Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, um livro para despertar a criança que existe em nós, para adentrarmos no deserto, para visitar planetas e seus moradores, para cativar pessoas, para cultivar uma flor que é única no mundo, para ver o essencial, para tornar-se eternamente responsável por aquilo que cativamos, para vivermos o mistério das lágrimas, para criarmos vínculos, para termos amigos...

Foi relendo este livro que algo ecoou dentro de mim nestes dias tão únicos que estamos vivendo: algumas pessoas e situações tem tentado nos desumanizar. É curioso pensar que enquanto alguns de nós nos desumanizamos o próprio Deus se fez humano. O que me encanta, me faz ver tanta beleza na pessoa de Jesus era a capacidade que Ele tinha de ressuscitar os vivos, e não os mortos. Era a capacidade que Jesus tinha de olhar nos olhos de alguém que não merecia ser amado e ainda assim amá-lo profundamente. De ver como este Jesus ao se encontrar com uma pessoa não condenava o seu passado porque para Ele o que mais importava era o que a pessoa seria dali para frente. Encontros e amizades que sempre nasceram da precariedade: em cima de uma árvore, em aldeias de leprosos, em um poço sem balde, em pedras a serem atiradas, em uma pesca desastrosa, em um casamento sem vinho... É porque Ele via o essencial. Ele via as pessoas, não as coisas. Ela cativava as pessoas pelo olhar. E hoje Ele continua a fazer isso.


Hoje, olho ao redor e me deparo com um mundo cheio de convites e distrações mundanas que ocupam os olhos físicos diminuindo a capacidade de enxergar com os olhos da alma. Em um mundo barulhento muitas palavras são atiradas e nos deixam surdos e cegos para a humanidade, mas ainda assim preferimos o barulho externo a ter que olhar para o silencioso deserto de nossa vida. Nós negamos a olhar para dentro porque sabemos que lá encontraremos com aquele que nos conhece verdadeiramente, e ao olhar para Ele não podemos negar quem somos. Alguns podem até dizer que não gostam de desertos porque se sentem sós lá, porém, há solidão também quando se está entre as pessoas. A diferença é que no deserto podemos encontrar nós mesmos e encontrarmos com Deus. No deserto, logo logo percebemos que na verdade não estamos sós, mas estamos com o essencial.

É doloroso ver pessoas que em nome do cristianismo justificam seus atos de morte. Morte da paz, da solidariedade, do respeito, das amizades, da presença, da verdade, da compaixão, morte de pessoas até. Coitadas! Perderam o caminho do deserto. Só conseguem enxergar pessoas como cascas, e se esquecem que ninguém é oco por dentro. É certo que, muitas vezes é preciso limparmos por dentro, retirar algumas plantas más e deixar crescer outras boas. Mas muitos se esqueceram que antes de serem juízes dos outros, precisam ser juízes de si mesmos. “Sei que é muito difícil. É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros. Se conseguir julgar a si mesmo, provará que é um verdadeiro sábio.” (Saint-Exupéry, p. 55)

Você tem gostado da pessoa que você tem se tornado? Ou será que você tem deixado que grandes árvores como os baobás crescem tanto em seu território humano ao ponto de te sufocar, tomar conta de você e já não permitir mais que você se veja, se reconheça e se escute? Será que temos tido tempo para cultivar flores em nosso interior? Quem sabe até mesmo um jardim? Ou estamos apenas espalhando veneno, afastando visitantes e nos privando de contemplar o pôr do sol? Você sabia que o sol nasce e se põe todos os dias para todo mundo, seja ele bom ou mal, do grupo A ou do grupo B? É que muitas vezes enxergamos o nosso planeta como um planeta estranho, um planeta sem amigos, que “É completamente seco, cheio de picos e areia. E falta criatividade às pessoas. Apenas repetem o que dizemos... Em meu planeta há uma flor...” (Saint-Exupéry, p.91) E no seu, o que há?

Que tal escolher também um livro que te ajudará a encontrar-se consigo mesmo e com Deus? Escolha uma boa leitura. Dedique tempo a você. Marque um encontro com a arte e prepare uma boa xícara de chá, de café, de leite ou chocolate quente. Converse com você mesmo e se pergunte se está gostando do que anda fazendo, pensando, falando, espalhando para você mesmo e para os outros. Suporte algumas lagartas para conhecer as borboletas. E não se esqueça, que lá, onde o essencial é invisível aos olhos, onde tudo é precário, pode acontecer um encontro único em que você será profundamente amado, e tudo fará sentido. Vá para o deserto, porque o que torna o deserto encantador é que ele esconde um poço de água em algum lugar. E depois, volte ressuscitado pela Água Viva. Boa leitura!

SAINT-EXUPÉRY, Antonie de. O pequeno Príncipe; (Tradução Frei Betto). São Paulo: Geração Editorial, 2015

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